Objetividade versus subjetividade: reflexões acerca da prática do pesquisador

Einstein subjetividadeHoje a ciência trabalha com ambos esses conceitos. Nos séculos passados, no entanto, o discurso científico fundamentou-se, especialmente em nome das ditas ciências exatas, que sempre tiveram mais prestígio social, no paradígma da objetividade. Nessa perspectiva, o pesquisador, em sua prática, deveria atuar de maneira mais neutra. Os próprios métodos científicos começaram a buscar essa “neutralidade” para evitar que os experimentos e as pesquisas fossem invalidados/falseados pela subjetividade ou “erros” durante o processo de investigação.

subjetividade ciência

O paradigma da neutralidade é muito criticado hoje. Para muitos estudiosos, essa crítica recai sobre o fato de estes considerarem como ideológicas as práticas sociais e discursivas das pessoas (ainda que alguns justifiquem essas práticas pelo inconsciente), pois as ações das pessoas são intencionais ou motivadas por pelo grupo social ao qual elas pertecem, instituições etc.

Separar o pensar científico, de maneira mais objetiva, mais lógica, de outras formas de conhecimento, foi um processo recente e, muitas vezes, negado, como ocorreu no período da idade média. O renascimento, bem como as ideias iluministas permitiram grande boom das ciência, o que, marcadamento, em relação ao século XVIII, ficou conhecido como as revoluções científicas. Nesse período, o positivismo vigorou não só como um método, mas como um conjunto de ideias que norteou, e ainda norteia, várias ciências, humanas ou exatas, a partir de paradigma objetivo, “certo” e mais absoluto.

Em relação ao pesquisador, a objetividade, nesse sentido, trouxe, com o discurso da neutralidade, certo distanciamento entre objeto de pesquisa e pesquisador, bem como pesquisador e os ditos, de maneira passiva, pesquisados. O pesquisor representou, ou talvez tivesse a intenção de representar-se, como porta-voz da ciência. Atuava em nome da ciência para revelar à humanidade a verdade que ela não conhecia e não poderia questionar.

(Não devemos, acredito, condenar completamente o positivismo. Com certeza, se eu tivesse de me caracterizar em virtude dessa questão, eu diria que sou contrário ao positivismo, pois não concebo a realidade de maneira absoluta. No entanto, não podemos negar que esse método teve o seu valor. Inclusive, nas ciências humanas, o paradigma positivista predominou, e ainda predomina. E é facilmente observável uma separação entre áreas de uma mesma ciência humana que têm essa “herança” mais positivista.) No século XX, surge uma novo boom de ideias, oriundo dos estudos culturais, que irá influenciar não apenas as ciências, mas quase todas as esferas da sociedade. A sociedade passa de um paradigma “moderno” para o que alguns sociólogos chamam de “modernidade líquia” ou o que outros podem intiular de “modernidade-tardia”, “modernidade reflexiva” etc. Essa classificação entre o que é moderno ou não refere-se não somente às ciências, mas às várias esferas sociais. E trago a essa discussão essa caracterização em virtude de haver relação dialética entre a sociedade e a ciência e vice-versa.

objetividade versus subjetividade

Esse novo olhar do século XX, o que posso chamar de um olhar mais subjetivo, em razão, especialmente, da grande valorização da individualidade, que culminou na valorização de vozes que antes não eram audíveis, transformou completamente a prática do pesquisador, bem como todas as esferas sociais. E isso não ocorreu apenas em relação às ciências humanas ou em relação à pesquisa qualitativa, mas, também, na esfera quantitativa. Há, inclusive, menção a termo híbrido: “pesquisa quali-quantitativa”.

Percebeu-se que a ciência, bem como a prática do pesquisador não era tão absoluta como ideologicamente ocorreu nos séculos passados. Muitos reconheceram que o pesquisador interfere, de alguma maneira, no processo científico, por mais objetivo que ele tente ser. Não é possível, apagar a subjetividade do pesquisador, que, antes de tudo, é uma pessoa em processo de construção. Também foram repensados os próprios métodos científicos e houve maior diálogo entre a pesquisa qualitativa e quantitativa. O pesquisador especialista, a partir das concepções desse século, deveria estar atento a outros olhares além de sua própria área e, quem sabe, repensar os métodos científicos a partir de uma triangulação com outros métodos e teorias. Nesse sentido, investe-se hoje nos estudos interdisciplinares e a(s) verdade(s), o(s) conhecimento(s) em si, articula(m)-se a um(uns) ao outro(s) a fim de permitir uma maior dimensão do que um olhar centrado em apenas um método que a ciência poderia ter.

Ainda há aqueles mais puristas que concebem a ciência de outra maneira e, inclusive, condenam essa postura mais contemporânea do pesquisador. De fato, é preciso muito cuidado para que esses vários olhares não transformem “a verdade” (ou o que é possível observar dela) em uma visão turva e caótica de o que ela poderia representar. Por outro lado, o olhar especialista pode predeterminar a visão, apenas, àquilo que se quer ver.

Objetividade das ciências

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