Este é o meu laudo, “doutor”

A FORMAÇÃO DO STATUS DO DOUTOR

É incrível como vocês “doutores” mitificam-se a si mesmos a partir de uma atribuição que não lhes cabe. Muitos de vocês, brasileiros, desesperados para não serem julgados como classe b, c ou para não serem intitulados de populares, para não serem o que são, decidem cursar um curso de graduação, como qualquer outro: medicina. Não adianta mudar o traje, o discurso malandro e o aspecto negativo do jeitinho brasileiro, a transgressão, aquilo que lhes define em sua gênese mais perversa continua. O que deve ser mudado não é a busca por um traje branco; não é a sua carcaça, é a sua essência. E não defendo aqui um discurso de que devemos nos basear em modelos europeus, mas contaminarmo-nos com nossa própria lepra, não é a melhor saída. Estudar biologia, farmacologia ou qualquer outra área dessas não transforma, tampouco cura. Não adianta prescrever remédios, sentar na frente de seu “cliente” e tratá-lo como um futuro potencial para não aceitar mais o seu plano de saúde posteriormente e cobrar-lhe valores absurdos que vocês acreditam ter o STATUS PARA RECEBER. Afinal, “um médico ganhando só isso?” “mas para um médico, é realmente pouco”, “poxa, ele é médico e ganha isso, que absurdo!”. A formação em medicina é uma formação para uma função social e não pessoal.
E eu não vou ao médico para que ele imponha sobre mim o que ele quer. Embora eu “não tenha cacife”, eu sou o dono do meu CORPO e decido as ações que serão tomadas sobre ele. “Não tenho cacife”, mas eu não sou o “paciente” que recebe as instruções do “doutor”, a base suprema de conhecimento. Ainda mais de um “doutor” (graduado apenas) que não possui a minha titulação. Embora eu não seja um grande estudioso da área biológica, ao menos me informo a respeito de o que se passa pelo meu corpo. E não me venha dizer que isso é “automedicação”, “informação virtual”, pois essa aversão à acessibilidade de informação, por exemplo, bulas acessíveis à população; eu não “engulo”. Esse discurso a respeito de um entidade suprema que prescreve medicamentos infindos sem ao menos fazer um processo investigativo da história dos sintomas do paciente, de suas queixas e de o que ele espera do tratamento, é uma visão unilateral baseada em uma sociedade que quer e exige “doutores” que a salvem. É a imagem de messias associada à medicina e aos farmacos: doutores salvadores e placebos, respectivamente.
Se vocês estão chateados por ganharem 30 reais por consulta, eu estou muito mais chateado por, às vezes, ganhar menos do que isso para dar aula, uma atividade que me consome muitíssimo e exige uma carga de estudo muito pesada. E uma carga que exige reflexão acerca de nossos problemas sociais; “pragas” como o descaramento de gente como vocês, que tento combater o tempo inteiro, por meio de muita reflexão. “Doenças” que até então nenhum “remédio” cura, tampouco consigo ajudar os meus “pacientes” a controlá-las, porque muitos estão tão “enfermos” acerca “dessas doenças”, elas já os consumiram. E talvez nem as extensões desses sujeitos acometidos, os seus filhos, por exemplo, consigam livrar-se delas, porque é ensinado a muitos desses “enfermos” que eles permaneçam nessa condição e que contaminem todos aqueles a sua volta de sua chaga.
Hoje fui ao médico, e tive de ouvir todo “o vômito” de um desses “doutores” contra o seu “enjoo” a respeito do programa da Dilma, que pretende enviar médicos para o interior do país. Ele nem ao menos ouviu as minhas queixas a respeito de o que eu sentia, queria “entupir-me” de remédios até a próxima consulta. Esse sujeito tinha apenas memória para lembrar-se de algumas poucas nomenclaturas para PRESCREVER. Ele não pensava, a sua memória era apenas uma PRESCRIÇÃO! Não lhe interessava refletir, o seu interesse era apenas nele mesmo! Ele era um rio, era um fluxo em si, prescrevia, prescrevia, prescrevia. A grande questão é, caro “doutor”: você não manda no meu corpo! Eu decido o que faço. E eu prefiro a reflexão à prescrição, ou repetição.
Durante toda a consulta, você interrompeu a minha fala e falou ao telefone durante 15 minutos e nos outros poucos minutos que nós conversamos, você “vomitava” a sua revolta contra a Dilma. Dizia tudo isso, sem ao menos anunciar o assunto, o que é extremamente necessário em uma conversa. Afinal, por que eu deveria conversar sobre isso com você? Você está revoltado pelo fato da Dilma querer enviar-lhe ao interior do Pará? Você quer ser “doutor” e não quer ver sangue, não quer ver os reais problemas de saúde de nossa população? Quer trabalhar para o governo e ter a sua própria clínica particular? Você não é médico, tampouco pode ser considerado “doutor” como estampou pateticamente o título em seu jaleco. E que a Dilma envie-o para os lugares que você menos deseja visitar e lá você realmente torne-se médico. Mas se quiser ser doutor, siga carreira acadêmica, porque graduação em medicina é apenas GRADUAÇÃO.

Quando estive descrevendo a esse sujeito o fato de um dos meus joelhos incharem e o outro não, disse a ele que o inchaço NÃO era simétrico. Naquele exato momento ele PRESCREVEU LINGUISTICAMENTE, para um LINGUISTA (e não fiz apenas graduação), eu, que o vocábulo “simetria” deveria ser utilizado apenas para fazer referência ao inchaço de ambos os meus joelhos, não apenas um. Essa parte da conversa foi a mais interessante. Além de prescrever o quadro social brasileiro, o infeliz prescrevia sobre língua. O comentário foi tão infeliz, que eu ignorei por vergonha alheia. A sua falta de crítica, de reflexão, era evidente, afinal, ele só prescrevia, prescrevia. Ele é o resultado de uma escola muito preocupada com a memória, é um complexo de memória inútil. Não era capaz de entender que a constituição de um “conceito” existe por aquilo que lhe é inverso, por aquilo que o “conceito” NÃO (E EU DISSE NÃO NA CONVERSA)  é; é uma ideia similar à noção de pares mínimos do pai da linguística, o Francês, Saussure. A raiva existe pelo seu oposto, a alegria. A simetria existe pelo seu oposto, a não simetria ou assimetria. “Doutor”, quem faz a língua de quem fala é QUEM FALA.
Não adianta a formação em medicina, não adianta o dinheiro. O lado que liga o que essa gente chama de elite ao que ela mesma despreza como “popular” é o mesmo. Afinal não é só a “ralé”, a “plebe” que é brasileira, a “elite” também é, e sabe muito bem ser, do seu JEITO (DESCULPE-ME DOUTOR) mais cretino. Mas isso tudo não os aproxima da europa. Isso não os torna artistas ou especiais. Isso os torna mais brasileiros ainda, porque hoje o que define esse país são essas práticas sociais. Vocês não são especiais por serem médicos, vocês não ganham “um tom mais claro” pela brancura do jaleco, vocês continuam sendo todos brasileiros. Esse é o meu laudo, “doutor”.

Terra de SANTA CRUZ ou terra de SANTA IGNORÂNCIA??

Brasil-Ignorância

Em 1924, o Brasil deixava de ser um Estado TEOCRÁTICO. Hoje, ele caminha rumo a uma teocracia. Isso é um retrocesso? Será que a falta de escolarização ou falta de separação entre o pensamento crítico e a opinião (baseada em achismo, preconceito, religião) é a responsável por esse absurdo antidemocrático em que vivemos? Ok, o neoliberalismo tem os seus problemas, mas eu prefiro viver em um estado liberal, que coloca fim à Idade Média, do que viver uma JESUSCRACIA. Brasil de deus (com “d” minúsculo), pois esse deus preconceituoso e pessoal demais não é nada além de um delírio coletivo dessa gente que mitifica a si mesma como deus: d-eus me livre! É a mesma pessoalidade no serviço público e nas relações interpessoais. Um povo extremamente subjetivo e cortês, que está desesperado o tempo inteiro por validação de sua identidade nacional inexistente, em busca de um Messias que eleve a sua estima ou embranqueça-os e os tornem especiais, artistas, diferenciados, com a supremacia da individualidade sobre o coletivo. Isso foi o que o brasileiro se tornou: cidadão diferenciado, com status de cidadania desigual. A sua diversidade voltou-se contra ele mesmo para segregá-lo por sua própria diferença.

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O mal estar em ser brasileiro

O aspecto negativo do jeitinho?

A apresentação do Brasil no encerramento dos Jogos Olímpicos na Inglaterra iniciou-se da seguinte maneira: as luzes do estágio apagaram-se e, de repente, havia um holofote de luz em uma figura muito representativa do Brasil, um gari, em seu uniforme alaranjado. O que eu achei interessante nessa parte da apresentação é que o gari é muito representativo do povo brasileiro, especialmente ao se pensar que é preciso que alguém limpe a sujeira dessa gente mal educada que vive jogando lixo no chão. Outro aspecto interessante é que o gari era negro, o que é também bastante representativo, uma vez que a maioria da população brasileira é negra, embora haja um discurso de negros e brancos desesperados sempre por um tom mais claro, que quando não pode ser manifestado em suas características físicas ou cor, ou em sua prole, tenta sobressair-se por meio de poderio econômico e status: é o embranquecimento em si – o desespero dessa gente por negar aquilo que eles são – vocês sabem com quem estão falando? O gari entra e aparece sambando e quebrando a norma estabelecida (BRASIL SIL SIL SIL SIL) e um guarda (ator) sai correndo em direção ao INFRATOR, que DÁ UM JEITO PARA NÃO SER PRESO e começa a sambar novamente. Ambos, o gari e o guarda sambam e o PARAÍSO DAS TRANSGRESSÕES inicia a sua apresentação em um cenário de beleza natural, fictício, caótico e de relações assimétricas, em que recai sobre o gari apenas a malandragem, como elemento popular e pobre separado da outra parte do espetáculo, representativa de uma elite branca que pode até transgredir, mas a ela não recai a culpa de sua transgressão, então aparecem os artistas e as modelos brasileiras.

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Quando penso na maneira que essa gente se comporta, que age, que educa e no seu discurso, eu questiono se esse lado cultural dessa nação, o lado negativo do jeitinho, não seria uma peste a qual a nossa estrutura governamental, educacional e familiar não conseguem combater. Eu compreendo que alguns padrões de desenvolvimento não devem ser aplicados aqui, pois esvaziam-se em nossa realidade, mas eu não consigo acreditar que o Brasil caótico que me encontro, em uma cultura que não me identifico e em um povo que não me representa possam ser “culturalmente aceitos”. E sim, eu defendo um projeto civilizador, pois se esses termos já são contraditórios, em uma cultura irracional e extremista, a sua garantia é nula e não se é possível formar cidadãos. Ou então, que os prédios e qualquer estrutura urbana desse país sejam removidas e que vivamos na mata (ou no que nos restou dela, já que nós a destruímos), em bandos separados em um confronto que tenderá a nossa própria destruição: sem leis, sem regras, sem civilidade. Então o que o brasileiro é se indago aqui ironicamente o seu status de cidadania? E não o comparo aos indígenas ou outras culturas distantes dos modelos urbanos e modernos, pois nesse caso, acredito que organização social desse povo não é tão caótica quanto o sistema social brasileiro. E o índio nem precisa ir à escola para compartilhar de certas leis em suas comunidades, diferente do brasileiro, que pobre ou rico, parece um animal selvagem que não vive em uma comunidade humana.

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Hoje, quase fui atropelado em frente à academia onde malho. Uma animal selvagem (eu acho que nem os animais merecem essa metáfora, talvez eu devesse dizer: monstra selvagem), dirigindo um carro estava dando ré para estacionar em um local ILEGAL. Ela ia contra o fluxo de carros que vinham por trás dela e sentia-se no direito descarado de transgredir e impor a sua subjetividade e pessoalidade. Não havia carros nesse momento passando pela rua, então atravessei para o outro lado, quando percebo que ela aumenta a velocidade em minha direção. Eu não posso dizer nesse momento que ela tenha me visto e eu acredito que ela não me viu (eu espero). Mas o que me incomoda é exatamente isto: como é possível alguém dirigindo um carro acreditar que a rua, um espaço público é o seu espaço privado, a sua casa, o seu reduto? Ainda mais em um local ilegal de se estacionar? É claro que quem compartilha com esse tipo de pensamento é, de maneira geral, ricos ou pobres, brasileiro.

Eu me incomodo bastante com isso. É comum no Brasil existirem, talvez pelo caráter de cultura latina, relações extremamente pessoais e emotivas. O problema dessa “pessoalidade” está muito relacionado à política brasileira e também ao exercício da cidadania. Sobre a política, nem a burocracia, como forma de administração pública, “deu um Jeito” na pessoalidade de nossos políticos e funcionários públicos, que trazem as suas vidas para questões representativas, de âmbito nacional, ou seja, muitas vezes, eles não exercem função pública, exercem funções para si mesmos e legitimam esse comportamento porque as regras de convivência nesse país permitem que algumas leis e regras não sejam cumpridas para que não se seja antipático e para que haja identificação momentânea entre os interlocutores e as barreiras socioeconômicas, ainda que momentaneamente sejam desfeitas. Sobre o exercício da cidadania, especialmente em casos que haja identificação entre os interlocutores, o processo de interação faz-se muito próximo e pessoal, eu diria pessoal demais. E eu também diria que intimidade, principalmente em demasia, é uma arma contra cada um dos interlocutores. Nesse processo, caso haja discordância, apela-se necessariamente para outro ponto de concordância: “Ele é corno, mas é meu amigo, é zé-ruela mas é meu amigo, ele é viado, mas é meu amigo, ele pode ter defeito, mas é meu amigo).” Se não se encontra essa harmonia, de acordo com Lívia Barbosa (sobre o jeitinho brasileiro), apela-se para outra estratégia: “Você sabe com quem está falando?”. Mas é preciso ter “cacife” para que se diga isso. Muitas vezes, esse excesso de intimidade impede o exercício da cidadania para que se seja cordial.
Considero a busca pela malandragem outro aspecto importante nesse universo subjetivo que ao mesmo tempo parece ter um aspecto social. O problema é que embora muitos não concordem com essas atitudes pessoais, caso eles não possuam poder, omitem-se passivamente ou são cúmplices da transgressão, o que justifica o comportamento social. Embora haja traços no comportamento humano que podem ser encontrados em qualquer cultura, a peculiaridade do jeitinho brasileiro encontra-se no comportamento individual em excesso, justificado em um contexto no qual as várias vozes têm “valor”, sejam elas vozes de pessoas preconceituosas, bandidos, corruptos, religiosos, pobres, ricos, crianças, adolescentes, adultos, pessoas em situação de rua…
Há algumas semanas, eu estava em uma fila de supermercado. Uma mulher, que estava em minha frente, resolveu “dar um jeito” de ser atendida mais rapidamente e ir para o caixa ao lado. No entanto, a estratégia que ela utilizou não foi eficaz e ela resolveu voltar para a minha fila, mas para o mesmo lugar em que estava. Obviamente, nós começamos a discutir, afinal, eu não compartilho dessas atitudes. Também é comum, em filas, quando se está com muita pressa, ver as pessoas pedirem para passar na frente de outras, quando não possuem muitas coisas para pagar. Isso é interessante, inclusive, porque os mercados fazem filas para clientes com produtos de até 10 unidades e filas convencionais para aqueles com uma quantidade maior de produtos. Embora o problema pareça ser resolvido dessa forma, não é de se estranhar que haja sempre pessoas com os seus carrinhos cheios nessas filas. A gentileza e o favor aqui são importantíssimos para que caso não se concorde com essas atitudes, não haja arrogância, prepotência: “ficar querendo bancar de grã fino”.
Há alguns meses, eu estava na parada de ônibus, aguardando as chamadas “zebrinhas” de Brasília: vans para o transporte público. Entrei na van, eu estava com uma nota de dez reais e quando tentava passar a catraca da van, que permanecia bloqueada, o motorista pediu que eu saísse da van e não embarcasse, pois ele não possuía troco. Eu achei aquilo tão absurdo e revoltante. Eu disse ao motorista que eu NÃO iria descer porque ele simplesmente exigia, por meio da PESSOALIDADE dele que eu não embarcasse. Disse a ele que eu poderia receber o meu troco depois, afinal eu só desceria da van vinte minutos depois. Até lá, ele conseguiria dinheiro extra para me voltar o troco. Ele insistiu e justificou-se por haver uma van atrás que iria para o mesmo local que eu estava indo, disse que eu deveria embarcar nela. Eu reafirmei a minha postura dizendo que não gostaria de perder nenhum minuto. Enfim, ele não embarcou e eu sai da van para não me estressar mais. Eu sinto vergonha de morar nesse país nesses momentos. E eu sinto orgulho de mim mesmo de não compartilhar com o mesmo pensamento acéfalos e medíocres dessa gente, além de ser repelido ao mesmo tempo com os dizeres, embora eu acredito que isso seja muito perverso da parte deles: “você é brasileiro?” “você é do sul?”! Trabalhei em um cursinho onde um dos professores, que estava conversando sobre a “malandragem” de ser ele mesmo e do esporte futebol no Brasil, “peidou” perto de mim e disse: “foi mal aê”. Em seguida, começou a narrar  o quão “esperto” ele mesmo era por peidar em sala de aula perto dos alunos “chatos” e “nerds” que ele não gostava. Por fim, ontem eu estava no terminal Asa Sul/Estação do Metrô, aguardando ônibus para o meu bairro na Asa Norte. No entanto, não havia ônibus na estação a não ser alguns que iriam para outros lugares, mas passariam pela minha casa, mas custavam um real a mais. Esse ônibus iria para regiões mais pobres aqui em Brasília. Entrei no ônibus (vazio), muito apressado e permaneci sentado. O ônibus estava cada vez mais cheio, conforme os minutos passavam. Aqui em Brasília, há um confronto socioeconômico entre indivíduos que moram no centro (como eu) e aqueles que moram em outras regiões: “subúrbio”. Isso é interessante, porque em alguns países, o centro não é tão valorizado, as regiões mais distantes são mais valorizadas e “caras”, são os “subúrbios”. Havia uma garota em pé no ônibus, próxima de mim que demonstrava estar incomodada pelo fato de eu ser um elemento ali facilmente identificado como não pertencente ao grupo que costuma pegar aquele ônibus (e não estou sendo hipócrita, pois quando pego esses ônibus geralmente as pessoas me chamam de almofadinha, rico, e inclusive me assediam) devido a minha postura, roupa, enfim… Diferente dessas pessoas, eu não me vejo tão distante delas, até porque se eu me visse, eu não andaria de ônibus, compraria um carro por não suportá-las, como muitos brasileiros fazem ou não teria pegado aquele ônibus, pois eu sabia que ele ia cheio e às vezes costumo pegá-lo, apesar de ser um incômodo ir em pé, ainda que eu não esteja apressado. Então, essa garota, em pé, começou a dizer ironicamente, para a amiga dela, para todos ouvirem: “eu peguei o ônibus lotado para descer aqui por perto por quê? Será que eu sou trouxa ou otária? devo ser, né”, riu e levantou o rosto e às vezes me olhava em tom de confronto, como se eu não pertencesse ao seu grupo. Isso é interessante, pois as pessoas constituem-se sujeitos a partir da negação dos outros também. É claro que naquele momento essa garota não se identificava comigo. Mas não era eu quem não me identificava com ela, afinal eu estava naquele ônibus, era ela quem não me percebia como membro daquele contexto. Naquele momento, parei de falar ao telefone e disse a ela: “Entro no ônibus que eu quiser e o fato de você não ter gostado disso é problema seu; sou um cidadão em exercício da minha cidadania e tenho o direito de ir e vir e nesse caso de permanecer SENTADO, você queira ou não, seja você mulher ou não”. Afinal, eu não sou o típico brasileiro paternalista e machista que encontra-se por ai. O interessante disso é que geralmente as pessoas não aceitam o fato de eu não compartilhar o mesmo pensamento que elas e então, eles dizem que eu sou “chatinho, enjoado, metido, etc.”. Eu não me importo e acho isso um elogio, afinal, se ser o outro, no meu caso, aquele que muitos brasileiros não se identificam, implica necessariamente em ser o repelido, aquele que pensa e não deveria pensar para “não se estressar”, o professor que não deveria se estressar tanto, pois a educação no Brasil não tem jeito mesmo ou então ou “sai dessa, que você será mais feliz”, eu prefiro ser o outro do que ser aquele brasileiro típico e acéfalo que não me representa.